Evento foi realizado para comemorar os 10 anos de criação do grupo formado por detentos do Presídio de São Lourenço
Hebraico, italiano, alemão, grego e latim. Nestes e em outros idiomas, 11 detentos do Presídio de São Lourenço fizeram um concerto na última sexta-feira, 18.05, na Basílica da São Lourenço Mártir, às 19h30, localizada no centro da cidade. O evento foi promovido para celebrar os 10 anos de criação do Coral Vozes da Cela, formado exclusivamente por homens em cumprimento de pena nos regimes aberto e semiaberto. O grupo já foi assistido por aproximadamente 20 mil pessoas, em mais de 500 apresentações.
O concerto teve a participação especial da soprano Patrícia Vilches, formada pelo Conservatório Brasileiro de Música do Rio de Janeiro, especializada em Ópera Alemã na Universidade de Música e Teatro de Munique e interpretação operística na Ópera da Baviera.
Estiveram presentes no evento servidores de diversas áreas da Secretaria de Estado de Administração Prisional (Seap), cidadãos de São Lourenço e familiares de detentos. O secretário adjunto da Seap, Marcelo José Gonçalves da Costa, fez a abertura do concerto agradecendo a presença e o apoio de todos. “Estou muito feliz de ver aqui, de coração aberto, a sociedade de São Lourenço na igreja matriz. Isto representa o desejo da comunidade em ajudar no processo de ressocialização dos homens e mulheres em cumprimento de pena”.
A Basílica de São Lourenço recebeu por diversas vezes o Vozes da Cela, para concertos e celebrações litúrgicas nos dez anos de atividades. Dentre as mais importantes apresentações do grupo, destacam-se a abertura oficial da Conferência Nacional de Segurança Pública e do Congresso Brasileiro de Secretários de Segurança Pública, ambos em Belo Horizonte.
O grupo também cantou no Festival Internacional de Corais, no Teatro Municipal de Ouro Preto, e ainda no Teatro Municipal de Sabará e na Escola de Música da UFMG. Em São Lourenço e na Região Sul do estado, esteve em diversos eventos.
Fidelidade
No segundo banco da igreja, Edna Galvão, 88 anos, assistiu com atenção a apresentação das 10 músicas cantadas pelos detentos e a soprano Patrícia Vilches. Não foi a primeira vez da ouvinte. Ela já assistiu diversas apresentações do grupo e sempre que pode marca presença. Gosta de ficar bem perto para acompanhar a expressão facial dos cantores. “Quando vou a um concerto de piano gosto de ver os dedos do pianista deslizando nas teclas. Ver o rosto e o olhar desses rapazes é fundamental. Eles realmente cantam com a alma, há emoção e alegria. Ninguém fica imune ao poder da música”, explicou a senhora.
Para o maestro e responsável pelos ensaios dos presos, diretor de Atendimento do Presídio de São Lourenço, José Henrique Martins, o trabalho desenvolvido por meio da música com os detentos busca incentivá-los, para que sempre façam o melhor possível e sejam responsáveis pelo seu próprio destino. “Minha maior alegria é ver que o projeto deu bons frutos, ajudando a transformar vidas. Isso, realmente nos envolve. Cada aplauso do público, para nós do grupo, é uma vitória”, reflete José Henrique Martins.
Vozes da Cela
O coral nasceu em 18 de maio de 2008, como parte de um projeto de ressocialização e humanização, na Escola Estadual São Francisco de Assis, que funciona dentro do Presidio de São Lourenço. As professoras Shirley Rose Almeida e Cláudia Regina Paulino foram as idealizadoras do projeto, o qual recebeu o apoio do maestro e servidor do Sistema Prisional, José Henrique Martins, dando continuidade à iniciativa. Na escola são realizados os ensaios e os professores atuam como parceiros, auxiliando nos conhecimentos necessários para as apresentações, como por exemplo, na tradução de letras e ensino da pronúncia.
Pelo grupo já passaram mais de 120 presos, em razão de progressão de regime, alvará de soltura ou transferência de unidade prisional. Mesmo com alguma rotatividade, o Vozes da Cela conta com a experiência de veteranos como Ronnie dos Santos Alves, 32 anos, que está no grupo desde a fundação e perdeu a conta do número de apresentações das quais participou. “A música está na minha vida, mesmo depois de 10 anos continuo me emocionando”, revelou Ronnie, que ao final do concerto entregou um bouquet de flores para a soprano Patrícia Vilches, em nome do presídio de São Lourenço e da Seap.
Para ingressar no grupo é preciso muito mais do que talento. O custodiado deve estar trabalhando e estudando e, para isso, passa pela avaliação de uma equipe multidisciplinar formada por psicólogo, assistente social, analista técnico jurídico, médico, gerente de produção e servidores da área de segurança e inteligência.
O mais recente integrante é o detento Janser Moreira Góis, 41 anos, que teve a oportunidade de cantar fora do presídio pela primeira vez. “Me senti próximo de Deus. Foi uma enorme alegria, principalmente quando cantamos em hebraico a música Jerusalém de Ouro.”
Ao final da apresentação, sob fortes aplausos e pedido de bis, os detentos cantaram É preciso saber viver, música de Roberto e Erasmo Carlos.
Programa do concerto:
YERUSHALAYIM SHEL ZAHAV (JERUSALÉM DE OURO) - OFRA HAZA
SIYAHAMBA - HINO RELIGIOSO SUL AFRICANO - TRADICIONAL ZULU
CANÇÃO DA AMÉRICA - MILTON NASCIMENTO
CONQUISTA DO PARAISO - VANGELIS
JEUS BLEIBET MEINE FREUDE (JESUS ALEGRIA DOS HOMENS) - J. S. BACH
PANIS ANGELICUS - CESAR FRANCK - PARTICIPAÇÃO SOPRANO PATRICIA VILCHES
SANTA LUCIA LUNTANA - CANÇÃO NAPOLITANA - BENIAMINO GIGLI - PARTICIPAÇÃO SOPRANO PATRICIA VILCHES
NESSUN DORMA - PUTTINI - PARTICIPAÇÃO SOPRANO PATRICIA VILCHES
CON TE PARTIRÓ - ANDREA BOCELLI
Texto e imagens: Bernardo Carneiro